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Histórias e memórias de Alagoinhas pelos escritos de Maria Feijó


     

.......Neste terceiro arrazoado da série iniciada há três semanas, pretende-se continuar apresentando ao leitor facetas dos prefácios às obras de Maria Feijó, a partir das quais se quer esboçar um quadro das principais características da cidade de Alagoinhas, visto que, como já se afirmou,  as pessoas escolhidas para elaborar os textos  que servem como “aperitivos”, de modo a traçar um panorama geral das  obras, mais aplaudem a autora, do que apresentam o livro em sua inteireza ao leitor, fornecendo-lhes os elementos para decidir sobre a sua leitura ou não. Nos textos, recheados de apreciações e avaliações alicerçadas nas relações de amizade e afinidade literária, não apontam as lacunas, os equívocos e/ou excessos eventualmente existentes na obra prefaciada, compelindo o leitor a ler de modo acrítico e passional, incutindo juízos apriorísticos, naqueles leitores menos argutos e de pouco senso crítico.

Neste sentido, depois de brevemente ter dedicado algumas linhas ao prefácio e ao prefaciador de “Alecrim do Tabuleiro”, primeira das três obras com as quais se pretende apreciar as construções imagéticas que Maria Feijó desenvolve acerca de Alagoinhas, chega a vez de trazer ao leitor algumas das características do prefácio escrito por Mercês Maria Moreira Lopes (1928-C30-…), escrito para figurar na obra “pelos Caminhos da vida … de uma Professora Primária”, publicado em 1977. Nele, a “comadre” literária da autora, em texto curto e conciso, desempenha a tarefa que lhe fora confiada, de modo a não destoar do que já se aludiu acima, na medida em que acaba por considerar o livro um seu “afilhado”, para o qual evocava “bênçãos” em profusão, que resultassem, em última análise, em sucesso do trabalho literário, ora sob sua apreciação. ”Aceitando a honra que me coube de batizá-lo, enquanto se lava nas águas lustrais do sacramento, envio-lhe a bênção de madrinha, com os votos para que o afilhado seja feliz e o convite para que todos o conheçam”.

Moreira Lopes, hoje octagenária, começa seu libelo escrito em junho de 1977, dizendo que: “”…pelos CAMINHOS da VIDA.., de uma PROFESSORA PRIMARIA” é o nome deste livro. Não poderia ser outro. Bem lhe assentou! Chega devagar, muito de leve, sem pretensões de atrair, e logo nos encanta pelo mistério e fascínio dos seus segredos antigos, pela simplicidade provinciana dos seus personagens, pela magia de seus sonhos, pela versatilidade sem arrogância de suas posições no ambiente, pela motivação de seus mitos, ternura e lembrança e pela fluência sóbria de sua narrativa.”

Dez ou doze anos mais moça que Feijó, Moreira Lopes desenvolve o seu descortinar de aplausos ao trabalho literário sob sua apreciação,do posto de observadora dotada de excelente possibilidade de uma visão mais profunda do texto, pelo fato de ter sido privilegiada em fazer a primeira leitura da obra. Isto ela o demonstra com clareza, dando a entender que não fizera quaisquer reparos ao texto, ou mesmo ao seu conteúdo. É assim que se posiciona Mercês Maria Moreira Lopes: ”…pelos CAMINHOS da VIDA.., de uma PROFESSORA PRIMARIA” é dócil e submisso. Terá muitos admiradores. Então, por que não dizer para Maria Feijó: —Comadre, muito obrigada! E por que não falar como os padrinhos de outrora? —Deus te abençoe!”

Sendo a prefaciadora igualmente interiorana como a escritora, poderia ter dado grande contribuição aos leitores da obra por ela recomendada. Nascida em Paraopebas, Minas Gerais, vivendo sob o mesmo corpus de idéias, hábitos, costumes e conceitos que permeavam grande parte das cidades encravadas nos grotões brasileiros das primeiras três décadas do século XX, bem poderia discorrer sobre possíveis diferenças e/ou semelhanças entre as duas localidades, realçando os elementos constitutivos da vida interiorana, talvez introduzindo exemplos de sua cidade, que corroborariam com os elementos apostos por Maria Feijó ao seu alentado trabalho memorialístico, travestido de ficção, a partir do qual, se pode desenvolver  rica análise da construção de imagens e descrição de realidades da Alagoinhas por ela retratada

No entanto, Mercês Maria Moreira Lopes, prefere ressaltar a autora da obra prefaciada e o seu trabalho em suas linhas bem gerais. Afirma ela que:

“O dia-a-dia com suas angústias é superado. Corta-lhe as arestas, ausculta-lhe as aflições, conduzindo-as ao plano elevado e puro da resignação e ao gratificante nível das compensações. Foge aos duetos, aos crimes, às ofensas. Seu apelo é direto à generosidade, aos sentimentos bem formados. Foge das trevas que envolvem os personagens. Tudo neles é claridade. Todos eles são pacíficos, mesmo quando insistem em parecer revoltados. Ou arrebatados. De uma coisa, porém, Maria Feijó não consegue fugir: ao saudosismo! Seu saudosismo hospitaleiro. Sem pieguices. Bairrista, jamais se esquece de Alagoinhas, sua terra natal. De seus mestres e colegas, parentes, amigos e vizinhos. Da Escola Normal onde estudou, das escolas onde praticou o magistério primário. Professora por índole, por vocação, coloca-se frente a frente ao seu destino. Procura contá-lo e sua voz o atinge inteiro. Destino espinhoso, que se faz luminoso”.

A poetisa mineira, mergulhando um pouco mais na obra por ela avalizada aponta os lastros que a sustentam, afirmando que:

“Dos escombros do passado, reminiscências se encorpam e se incorporam ao presente. Passado vivo! Presente saudoso. ”Este livro foi escrito com o coração para as pessoas de coração.” Eis o introito de ”…pelos CAMINHOS da vida.., de uma PROFESSORA PRIMÁRIA”, onde Maria Feijó, consagrada poetisa e escritora, conferencista laureada e jornalista erudita, portanto manejando com distinção e equilíbrio, prosa e verso, profunda em seu mundo onde as imagens de ficção têm afinidades com as metáforas rimadas ou não, da poesia, procura o absoluto, o belo, o perfeito, o jogo preciso das palavras, o linguajar limpo e límpido. Expressiva figura de artista e de mulher, jamais maculou sua pena, que é digna e sem nódoas. ,Foge ’à vulgaridade. Apresenta o cotidiano real, penetrando o silêncio das distâncias sem fadigas, eliminando carências, colocando plenitudes. Sempre discreta, pois esta qualidade lhe constitui rastro e lastro”.

Concentrando suas atenções na personagem chave da obra, que se presume tratar-se da própria escritora alagoinhense, moldada na professora primária que ela retrata no seu  laborar constante, Moreira Lopes assegura que:

“Peixoto, embora tímida, toma de súbito as nossas emoções, sem fazer .cerimônia. Permanece em nosso coração. Junto a Peixoto, outras figuras em seus teares de seda, em suas malhas de ouro, um malabarismo estranho, pouco a pouco vão nos prendendo. Ligeiro, o sol da Bahia nos inunda com o seu cintilar ardente. A paisagem de Alagoinhas, e demais localidades por onde viveu Luísa, cálida, entre o anil e o celeste, filtrada entre luz de pouca sombra, acariciante e translúcida, desmancha-se a nossos pés com seu velho odor de laranjais floridos, famosos na região. O sítio de Peixoto é um aceno à nossa cobiça; caímos em tentação: goiabas, cajás, cajus-banana, jacas e mangas. Burburinho d’água. Bulício de pássaros. Presenças singelas dos moradores. A graça inesquecível da filha única entre os irmãos varões””.

Segue ela:

“Costumes patriarcais. Severidade cristã do pai. Alegria inocente da mãe.  Labor pastoril. Prendas domésticas. O sentimentalismo de Peixoto. Seu desejo de ensinar o que aprendeu. Seu talento para piano e literatura. Seus versos com endereço certo. A desejada reconquista do amor infanto-juvenil, num corso carnavalesco… E ainda: a grande alma de Maria Feijó, consciente de que ser professora primária assume, além do ideal, condição de carreira. Um milagre que se realiza diante da leitura deste livro”.

 

José Jorge Andrade Damasceno é doutor em História Social e professor da UNEB Alagoinhas


 

 

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